Medo que dá medo do medo que dá

Quantos medos você tem? E quantos são exclusivamente por ser mulher?

MEDO

Substantivo masculino

  1. psic estado afetivo suscitado pela consciência do perigo ou que, ao contrário, suscita essa consciência.

“m. ao se sentir ameaçado”

  1. temor, ansiedade irracional ou fundamentada; receio.

“m. de tomar injeções”

Sentir medo é uma defesa contra possíveis ameaças. O medo é o que nos faz fugir de uma situação perigosa. Consequentemente, o medo nos mantêm vivos.

Mas, sendo mulheres, os medos nos rodeiam constantemente. Medos que homens nem imaginam que possam existir martelam incessantes na nossa cabeça. Alguns sem que a gente consiga explicar o porquê, mas, a maioria, muito bem fundamentados pelas histórias que vivemos.

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1- Medo de ser julgada incapaz

“Fez o teste do sofá?”

Quantas mulheres bem sucedidas já escutaram essa beleza de frase? Ou, quantas vezes já ouvimos essa frase quando alguém se refere àquela chefe não muito querida?

Eu já perdi as contas.

Mas ninguém usa esse tipo de estratagema para justificar a promoção de um homem. Não se questiona o merecimento de um cara bem sucedido em sua carreira. Não surgem dúvidas de que um homem colhe seus frutos com base na capacidade e talento que ele possui.

Por que isso não acontece com as mulheres? Por que o constante questionamento? Por que é tão difícil conceber que uma mulher não transou com alguém para ser colocada no posto em que está?

A gente tem que batalhar para chegar lá, e quando chega, tem que ficar se justificando e comprovando nosso merecimento, aaahhh me poupe!

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2- Medo de usar um tipo específico de roupa

E não é só mini saia não, viu?

Aparentemente qualquer pedaço de pele, insinuação de pele, pelos, marcas, qualidades e defeitos do corpo de uma mulher são propriedades públicas sujeitas à dissertação de terceiros.

Mulher troca de roupa mil vezes antes de sair. Porque ela é indecisa, certo?

Nem sempre…

Nós colocamos uma camisa de manga comprida, de botão, sem decote e uma saia longa de um tecido molinho qualquer.

Mas entre um botão e outro da camisa tem um espacinho que mostra 1 milímetro do sutiã. Tem que trocar porque onde já se viu as pessoas saberem que nós usamos sutiã!?

A saia confortável de tecido molinho deixa ver a marca do elástico da calcinha apertando um pouco nosso derrier. Tem que trocar porque onde já se viu as pessoas saberem que usamos calcinhas!?

Então nós trocamos por uma camiseta simples e uma calça jeans.

“Mas que tipo de mulher é essa que não se arruma para sair de casa?”

Colocamos uma regata: “nossa, está precisando emagrecer / engordar / bronzear / hidratar…”

Colocamos um shorts: “Perna fina / perna grossa / estrias / celulite / não depila a perna, não? / Nossa, pra que depilar a coxa?”

Colocamos um vestido: “Muito curto / muito comprido / está aparecendo a alça do sutiã / Está de farol acesso.”

Deu para ter uma ideia do processo que é encontrar uma roupa? É preciso estar muito em paz consigo mesma e muito em poder do foda-se para poder se vestir livremente.

Eu ainda não alcancei esse nirvana.

nada pra vestir

3- Medo de assovio

Qualquer “fiu-fiu” já faz a gente querer se encolher de volta no útero de nossas mães.

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Não é vergonha ou timidez. É medo. Medo de que aquele assovio se transforme numa perseguição. Que a perseguição se transforme em abordagem, que a abordagem se transforme em toque.

Ou seja, qualquer ‘fiu-fiu” nos faz imaginar aquele cara nos violando. Nos violentando.

A gente divaga demais? Talvez. Existem estupros demais? COM CERTEZA!

Então, se você é homem, não assovia. Não chama de gostosa. Não faz aquele barulho de quem está chupando cana. Não chama de linda. Não elogia o cabelo. Não fala nada!

E também não queira ser o cara legal que quer se aproximar para dizer que está tudo bem e jamais faria mal a uma mosca. Nós temos medo de você também. Fica longe e não faça mal que já está de bom tamanho!

4- Medo de não estar no padrão

Quem sofre mais discriminação na sociedade? Homens ou mulheres? Mulheres. Obvio. Próxima!

Mas, entre as mulheres quem é mais discriminada? Mulheres negras ou brancas? Mulheres gordas ou magras? Mulheres de cabelo crespo ou de cabelo liso?

Em algum momento na história instalou-se um padrão que deve ser seguido por 100% das mulheres do mundo para que sejam consideradas belas e aceitas. Esse padrão muda com o tempo mas alguns itens permanecem intactos: ser magra, branca, cabelos acompanhando a moda da época.

E quem não se enxerga nesse croqui faz o que?

Cirurgias plásticas, cirurgias bariátricas, processos de alisamento, clareamento e relaxamento dos cabelos, processos doloridos de remoção de pelos, remoção de estrias, remoção de manchas, remoção de qualquer coisa que atrapalhe o aspecto boneca inflável tolerado e desejado pela sociedade.

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É um eterno ataque a quem somos pra poder nos encaixar no que querem que sejamos.

Resultado: Quem é padrão ou quem conseguiu se transformar em padrão é taxada de fútil, pois “só se importa com a aparência”.

Vai entender…

5- Medo de homem

“Mas, Cris… homens também tem medo de homens!”

Mais ou menos. Veja só: homens tem medo de assassino, de sequestrador, de traficante, as vezes de policial, de terrorista… Esses, em sua maioria, são homens, e são considerados ameaçadores por outros homens.

Mulheres tem medo de homens mesmo. Do homem comum. O XY.

Para uma mulher, basta ter um pênis e você já é ameaçador.

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Nós temos medo do porteiro, do padrasto, do marido da amiga, do nosso próprio marido.

Medo de um deles tentar se masturbar ao nosso lado no ônibus. Medo de um deles ficar nervoso e nos acertar uma cotovelada pois perdeu a paciência de argumentar.

Medo de um deles atirar em nós forjando um assalto, tentar nos eletrocutar, nos deixar paraplégica, nos torturar durante anos e ficar preso por míseros 2 anos, voltando a viver livre e sem cicatrizes (isso aconteceu com Maria da Penha. Sim, a Maria da Penha que dá nome à lei).

Medo por nós, pelas nossas filhas, irmãs, amigas. Medo por todas as mulheres do universo.

 

Hoje eu ouvi a seguinte frase: “O medo não é real. O perigo é real.”

Talvez por isso ter medo, ainda que “fictício”, seja muito sensato.

Me conta aí nos comentários se você tem algum outro medo relacionado a ser mulher, e como você enfrenta esses medos.

 

Beijo na testa!