Hm, olha essa Cris, conservadorinha! Certo?

bela recatada e do lar

ERRADO! Deixa eu me explicar…

Partamos do princípio de que mulheres são seres humanos (juro!) e que o sexo é uma necessidade fisiológica do ser humano.

Baseada nesse conceito, estou confortável em dizer que nós temos o direito de saciar nossos desejos sexuais como bem entendermos.

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O prazer sexual é algo que foi negado as mulheres desde sempre, e só recentemente, principalmente a partir da década de 1960, é que começamos a ter liberdade para explorar a nossa sexualidade de forma que ela nos traga prazer e deixe de ser uma obrigação para com nossos parceiros e a sua “sagrada” satisfação.

Aprendemos sobre nossos corpos. Aprendemos a amar nossas curvas (algumas ainda estão nessa luta). Encontramos nosso clitóris e agradecemos diariamente a benção desse pequeno órgão cuja única função é nos proporcionar orgasmos (gratidão, mãe natureza!).

Aprendemos que é possível desvincular sexo de amor e que não há absolutamente nada de errado nisso.

Começamos a considerar que sexo no primeiro encontro não nos torna “putas”. Transar com muitas pessoas não faz ninguém perder seu valor, masturbação não é coisa de homem.

Até aí, só vantagens!

“Mas, pessoa estranha que escreve esse blog, por qual motivo então chamar a liberdade sexual de prisão? Comeu cocô?”

Não, não comi cocô.

Qual é o problema da liberdade sexual?

A resposta é simples e meio óbvia. Seres humanos!

Seres humanos adoram quebrar um paradigma.

E gostam ainda mais de construir outro!

O que eu vejo acontecer são pessoas deliberadamente interpretando a liberdade sexual como uma obrigação! E quando se torna uma obrigação, deixa de ser uma liberdade, creio eu.

Para que a liberdade sexual possa, um dia, ser realmente um direito individual, primeiro precisamos analisar as repressões sociais a que ela está sujeita.

1- Liberdade sexual e promiscuidade

Promiscuidade

Substantivo feminino

  • Particularidade do que é promíscuo.
  • Convivência entre diferentes pessoas em condições sociais diversas.
  • Mistura confusa e desordenada de seres no mesmo ambiente.
  • Relações sexuais em que estão envolvidos diversos parceiros.
  • Relacionamento sexual desregrado ou sem regras determinadas.

A OMS considera promiscuidade dois ou mais parceiro sexuais num período de 6 meses. Para homens ou mulheres.

Por mim, poderia ser extinto o significado relacionado ao comportamento sexual que essa palavra carrega.

Afinal, não existe liberdade sexual quando você claramente tem um limite de parceiros  antes de ser julgada e incluída em grupos de risco para disseminação de infecções sexualmente transmissíveis.

(IST é um assunto que ainda vai ter post por aqui, quando tiver eu falo sobre comportamentos de risco.)

2- Liberdade sexual e homossexualidade

Ser lésbica é, por si só, resistência e revolução.

Apesar de me parecer o mais próximo que conseguimos chegar da liberdade sexual, por não carregar o estigma da “mulher rodada” tão intrínseco quanto o relacionamento heterossexual, O relacionamento homossexual entre mulheres é visto pela sociedade patriarcal como diversão para homens.

Esse mundo pegou algo que deveria ser lindo e sagrado e fetichizou até virar entretenimento. Hoje um casal de lésbicas demonstrando afeto em lugares públicos recebe feedbacks que vão da lesbofobia ao assédio sexual. É como se fossem propriedade pública e todos tivessem direito a desfrutar daquele momento e formar suas opiniões.

O sexo entre mulheres foi transformado em algo para agradar homens, inclusive está sendo utilizado como forma de aumentar a audiência dos canais televisivos e a arrecadação das bilheterias de cinema.

Ou seja, não dá para pensar que existe liberdade quando sua orientação sexual faz um homem fazer aquele barulho nojento como se estivesse sugando sua alma e soltar a maldita frase: “posso participar?”

3 – Liberdade sexual e heterossexualidade

Poderia só escrever um haha aqui e fechar esse tópico. Mas vamos fazer uma forcinha e desenvolver um raciocínio…

Tudo pode parecer maravilhoso quando você quer transar com o cara. Quando você decidiu que você quer sexo com aquela pessoa naquele momento, sem pressão da parte dele e sem se sentir coagida a isso por chantagem emocional.

O problema está em quando você decide que não quer naquele momento. Ou não quer com aquela pessoa.

Quando um homem escuta um não, alguma coisa dentro dele muda e faz com que ele esqueça todo aquele carinho que estava disposto a te dar e passe a nutrir um certo rancor por você. (Inclua aqui o seu “not all men”).

notallmen

E quanto mais próximos vocês estiverem da penetração, mais raiva o cara vai ter de você.

Você deixa de ser a gostosa e passa a ser a vacilona. Deixa de ser “nunca conheci uma mulher como você” e passa a ser “você é igual todas as outras, não vale nada”.

A partir do momento em que você diz não, não importa o relacionamento de vocês, a reação vai ser negativa.

Se for marido vai ficar desapontado ou perguntar se você tem outro ou forçar a barra até você ceder (e ceder não é querer).

Se for namorado vai dizer “paguei motel pra que então?”, vai questionar a necessidade do relacionamento já que você não o satisfaz quando ele quer ou vai forçar a barra até você ceder (e ceder não é querer).

Se for um rolo/affair/crush ele vai deixar de ser. Ou vai forçar a barra até você ceder (e ceder não é querer). E depois disso vai deixar de ser rolo/affair/crush de qualquer forma.

Se for uma pegação na balada o cara só não vai te chamar de santa. Ou vai forçar a barra até você ceder (e ceder não é querer).

Ou seja, se não tem liberdade para que nós falemos NÃO sem sofrer represálias, não é liberdade!

Lembrando que em todos os casos você fica vulnerável ao cara forçar a barra mesmo sem você ceder! Nesse caso, ou em qualquer situação que você identifique assédio sexual ou estupro, denuncie!

Ligue 180 – Central de atendimento à Mulher

4 – Liberdade sexual e os rótulos.

De santa a puta, cada pessoa usa sua própria régua de julgamento. Não é raro passarmos por situações em que nossa dignidade é questionada em conta da quantidade de parceiros ou tipo de sexo que tivemos ou que gostamos de ter.

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A “mulher para casar” não pode ter tido muitos parceiros sexuais, não pode ter feito sexo anal, não pode se masturbar, não pode ter filhos (porque o parto “estraga o brinquedinho”), não pode carregar camisinha na bolsa, não pode ter tido prazer com outras mulheres, não pode ter feito sexo com mais de uma pessoa ao mesmo tempo.

Nem preciso explicar porque foi que a liberdade sexual passou longe daqui, certo?

Liberdade sexual pra quem?

A ideia de liberdade sexual nos aprisionou no sentimento de “Sim, Senhor”, sabe, o filme?

yesman

Estamos dizendo sim, porque né, 2018, não tem motivo para negar, ninguém vai te julgar, vamos aproveitar a vida e as oportunidades!!

E estamos esquecendo que o principal motivo para dizer não é porque você não quer. E se você não quer ninguém pode te obrigar. Nem mesmo a ilusão de que você quer sim e só está sendo antiquada e conservadora achando que não se sentiria confortável com isso.

Essa liberdade sexual em que achamos que temos que aceitar tudo o tempo todo continua beneficiando quem já é sexualmente livre há muito tempo: o homem hétero.


Me contem, vocês estão se sentindo livres para amar suas companheiras?

Estão se sentindo livres para dizer não aos seus companheiros?

Estão se sentindo livres?

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Beijinho na testa!